Imaginei estar na pior, parecia que iria cair, sentei-me na cadeira e por um instante tive vontade de sumir mundo afora. Percebi que pobre da cadeira. Sempre alguém senta nela, ela nunca pode sentar-se, tem de estar sempre em pé, quando as visitas se vão, seu dono a põe de pernas para o ar sem o menor respeito.
O pior de tudo isso é; ter quatro pernas e não poder se quer sair do lugar sozinha.
Deite-me no sofá achando que, já que com dois braços talvez ele tivesse um ombro pra me dar, mas não, sofá tem braço, mas não tem ombro. Tem costa, escoro, mas ombro não, tem duas ou três bundas, acentos, mas não tem quadris, nem cintura. Sofá é bicho incompleto como eu.
Deite-me na cama, escorei minha cabeça na cabeceira, chorei mais de 100 mililitros, o previsto para o mês inteiro em um só dia. Percebi que a cama não tinha cabeça, mas um lugar a deixa-las, a cabeceira. Aos pés atrofiados da cama corri o mundo inteiro em sonho. Percebi que os meus pés tinham peito, mas não coração. Percebi que a mão francesa é feita no Brasil, que as portas do guarda-roupas não nos levam a saída nenhuma, muito menos a alguma entrada, que o bico do bule só canta o vapor de dias frios regados a chá, que as alças não namoram os alces, que o fato do tênis ter língua não signifique que ele fale, que as bocas do fogão não fofocam entre si, nem bocas de lobo comem ovelhas, que ninguém cai no buraco da fechadura, que a água que sai da torneira não torna a ela á mesma que foi um dia, que a cera da vela não é a mesma do ouvido, que um corpo de texto não tem braços, nem pernas, nem cabeça, nem nada, então por que é corpo? Que a flor nada mais é do que o órgão reprodutor das plantas, pênis e vaginas coloridos, ou brancos ainda á colorir, mas sem olhos para flertar, que embora o copo tenha borda ainda se pode desenhar fora dela, que embora almofadas tenham capa, não voam, muito menos são heróis, que as orelhas do caderno dizem mais sobre quem você é, do que te ouve. Que eu tenho pernas, não saio do lugar, que embora tenha braços, não sei onde pôr as mãos, que embora tenha cabeça, não sei direito o que se passa dentro dela, que eu sou um ser ”completo”, minhas mãos podem tocar piano e gaita de fole, que minhas pernas correm, que minha cabeça julga pensar segundo suas próprias regras, mas me falta saber o que fazer com tudo isso. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço, nem dois espaços o mesmo corpo.
Amei esse texto!!! Inclusive as comparações... rsssss... Que legal.. Li em primeira mão!!!!!!!
ResponderExcluirParabéns