O crânio bateu no asfalto com força, era o peso da cabeça vezes um número que não me lembro, mas tinha várias casas, centena, milhar, dezenas delas. Ela se partiu e pelo asfalto vazou milhares de coisas, dinheiro, cores, livros, aparelhos tecnológicos (como sempre cada vez menores), idéias choveram em páginas, muitas páginas, de dentro de sua cabeça também saiu um feto, o desejo inacabado de um filho que gestava em um espaço alheio de útero, um espaço branco, que ele chamava de imaginação. Pela guia do asfalto escorria até a boca de lobo mais próxima tudo o que ele queria ter dito e armazenou em sua cabeça. Durante horas o líquido correu, parecia ser alguém muito calado para guardar tantas coisas para se dizer, ou alguém muito idiota, a ponto de dizer tantas tolices e não se preocupar com o que realmente valia a pena ser dito. As crianças pegaram os papeis que do céu caiam, e rasgaram já que não entenderam nada ao ler, as páginas não tinham seqüência, e como eram muitas, não tiveram vontade de ajunta-las para saber quais as idéias de um desconhecido sem cabeça no chão. As crianças se divertiam com a chuva de idéias picadas.
A policia chegou e cobriu o corpo que depois da queda estava decapitado. O plástico negro dava destaque imenso as cores que saíram de sua cabeça. A policia tentou listar todas as coisas que saíram da cabeça do garoto, geladeiras coloridas, fotos, muitas delas, rolos intermináveis de vídeo, e muitas outras coisas. Tudo o que se podia imaginar havia saído daquela cabeça agora inexistente no asfalto.
Os legistas a chamado da policia examinaram primeiramente as condições do local, examinaram então o corpo.
As causas foram a surpresa. No laudo sobre a morte do garoto consta que ele tinha dois corações que bombeavam sangue por todo o seu corpo, inclusive para sua cabeça, os legistas chegaram a conclusão que dois corações bombeavam sonhos demais para uma única cabeça e esta não suportou, disseram que o peso da cabeça foi aumentando com o passar dos dias em dúvida, o garoto começou a viver uma vida dupla, o peso sobre sua cabeça aumentou radicalmente. O fino pescoço não agüentou o que fez com que perdesse o equilíbrio, caísse e estourasse em cores no asfalto preto.
Não havia maior poesia sobre um corpo morto, do qual esvaíram durante horas suas duas vidas. Os rolos de filmes continham seus sonhos, memórias, e nas fotos a vida dupla que levava. O fato é que ele estava em dúvida demais para viver o que lhe foi dado; uma única vida. Passou tempo demais imaginando o que queria viver, e não viveu o que tinha. As páginas dos Jornais do dia seguinte estavam encharcadas de tudo o que não deveria ser dito, pedaços de papel colados comprovavam de maneira errônea a história de vida do qual todos queriam saber quem era, o garoto do asfalto, o garoto que teve suas palavras engolidas por uma boca de lobo, o garoto que nunca foi, nem é e nem nunca será, eram títulos dos jornais.
Foi difícil identificar o corpo, mas as fotos ajudaram a encontrar a família, que guardou todos os pertences e o corpo do garoto em uma grande caixa.
No atestado de óbito consta:
“A morte foi causada pelo fato de possuir bicorações, que bombeavam sonhos demais, causando polidúvidas cranianas levando-o óbito imediato de suas polividas.”
Não poderia haver tristeza maior, que uma vida não vivida. Maior que esta é saber que isto não passa de uma das páginas que voaram de sua cabeça aos céus, naquela triste manhã de céu límpido e ensolarado do feriado do dia 13, no bairro da amargura, de um ano que ninguém mais se lembra, de um mês que ainda não existiu.
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